Apesar de a água ser essencial à vida, ela pode transportar substâncias e micro-organismos prejudiciais para a nossa saúde. Nesse caso, a alta incidência de doenças de veiculação hídrica tem relação direta com a falta de tratamento da água e do esgoto.

Isso acontece porque, quando não há saneamento básico, a mesma água contaminada com micro-organismos patogênicos acaba sendo ingerida ou entrando em contato com a pele e com as mucosas do ser humano. Dessa forma, todo cuidado é pouco quando o assunto é qualidade da água.

Quer conhecer algumas doenças que são veiculadas pela água? Então, continue com a leitura deste texto!

Histórico das doenças de veiculação hídricas no Brasil

O número de internações por doenças associadas à falta de saneamento foi de 31,83 a cada 10 mil habitantes em 2010. Nos anos seguintes, essa taxa teve uma leve redução, sem apresentar uma melhora significativa. Resultado disso é que, em 2010, foram gastos mais de R$210 milhões apenas com internações causadas por essas doenças.

Em dados mais recentes, é possível perceber uma melhora nos índices. Em 2017, a incidência de internações no Brasil por doenças de veiculação hídrica foi de 12,46 casos para cada 10 mil habitantes, representando uma despesa de cerca de R$ 99 milhões. Apesar dos resultados, a melhora ainda é lenta e os gastos ainda são elevados.

Principais doenças de veiculação hídrica

Conheça as principais doenças que podem ser transmitidas pela água.

1. Diarreia por Escherichia coli

A bactéria Escherichia coli, também conhecida como E. coli, a princípio, não é maléfica para o ser humano. Esse micro-organismo costuma viver de forma harmoniosa no intestino de animais de sangue quente, como aves e mamíferos.

No entanto, bactérias sofrem mutações genéticas facilmente, o que pode resultar no aparecimento de grupos de E. coli prejudiciais para a nossa saúde. Dessa forma, a ingestão de água e alimentos contaminados com bactérias desses grupos específicos pode causar dores abdominais e de cabeça, febre, vômito, calafrios e diarreia aguda.

Quadros de diarreia podem levar à desidratação, o que é muito perigoso, principalmente para crianças, gestantes, idosos e pessoas imunodeprimidas. Assim, o tratamento dessa doença envolve, principalmente, a reposição de líquidos e a manutenção de uma alimentação equilibrada.

2. Amebíase

A amebíase é causada por um protozoário que recebe o nome de Entamoeba histolytica. Esse agente infeccioso libera cistos, formas inativas e resistentes, capazes de sobreviver por muito tempo no ambiente. Sendo assim, a ingestão de água e alimentos contaminados com esses cistos aparece como a principal forma de transmissão da doença.

Entre os sintomas mais perigosos da amebíase estão dores abdominais acompanhadas de diarreia com sangue e muco. Portanto, o tratamento dessa enfermidade consiste na ingestão de líquidos para evitar a desidratação, acompanhada da administração de um vermífugo eficiente, capaz de combater esse micro-organismo.

3. Cólera

A bactéria Vibrio cholerae é o agente causador da cólera, doença que se manifesta por meio de uma diarreia leve em 80% dos casos. Porém, também existem casos graves dessa enfermidade, em que episódios constantes de diarreia aquosa podem levar a pessoa enferma a perigosos quadros de desidratação.

A transmissão da cólera também ocorre por meio da ingestão de água e comida contaminadas. Dessa forma, condições precárias de saneamento básico, falta de cuidados com a higiene pessoal e manipulação inadequada de alimentos colaboram com a disseminação dessa doença.

4. Leptospirose

Esgoto a céu aberto, enchentes, falta de água encanada… Esses e outros problemas relacionados à falta de saneamento básico possibilitam a transmissão da leptospirose. Essa doença é causada por bactérias do gênero Leptospira, presentes na urina de roedores e outros animais, que penetram no nosso corpo pela pele.

Os sintomas da leptospirose consistem em febre, dor de cabeça e dores pelo corpo, podendo evoluir para sérias complicações no fígado e nos rins. Já seu tratamento é realizado por meio da vacinação de animais domésticos — não existe vacina para o ser humano — e pela administração de remédios capazes de prevenir a infecção quando há situações de risco.

5. Disenteria bacteriana

As bactérias do gênero Shigella são os agentes causadores da disenteria bacteriana. Uma pessoa infectada por esses micro-organismos pode apresentar dores abdominais, febre e diarreia com fezes sanguinolentas. Em casos mais graves, além da ingestão de líquidos para combater a desidratação, pode ser indicada a administração de antibióticos.

Mais uma vez, a transmissão dessa doença de veiculação hídrica se dá pelo contato com água e alimentos contaminados e, até mesmo, pelo contato direto com fezes de uma pessoa doente. A prevenção engloba o tratamento de água e esgoto, mas também ações simples relacionados à higiene pessoal, como lavar as mãos antes das refeições.

6. Hepatite A

A hepatite A é uma doença que pode manifestar sintomas ou não. Apenas uma pequena parcela de doentes apresenta febre, dores musculares, vômito, icterícia, fezes amareladas e urina escura. Apesar disso, qualquer pessoa infectada é capaz de transmitir o vírus causador da enfermidade, denominado VHA.

A principal forma de contaminação é a ingestão de água e alimentos contaminados com fezes de pessoas infectadas. Apesar de não existir um tratamento específico contra essa doença, já existem duas vacinas eficientes que possibilitam a prevenção contra o vírus da hepatite A.

7. Esquistossomose

Também conhecida como barriga d’água, a esquistossomose é uma doença que pode ter sérias complicações. Isso porque os vermes platelmintos do gênero Schistosoma, agentes causadores da infecção, vivem nas veias de importantes órgãos — como o intestino e o fígado. Esses vasos podem se romper com a presença dos parasitas, o que acarreta sérios sintomas, como aumento do volume abdominal, diarreia e sangue nas fezes.

Se as fezes de um doente forem lançadas em algum curso de água doce, ovos do parasita serão liberados e poderão se desenvolver em larvas. A transmissão da esquistossomose ocorre por meio da penetração ativa da larva cercária na pele de pessoas que entram em contato com água contaminada.

O desenvolvimento da larva cercária, que ocorre dentro de caracóis do gênero Biomphalaria, é uma fase importante do ciclo do esquistossomo. Dessa forma, além de evitar entrar em contato com águas suspeitas, o controle do caramujo hospedeiro também faz parte das ações de prevenção contra a esquistossomose.

8. Febre tifoide

A febre tifoide é mais uma doença relacionada à falta de um sistema adequado de tratamento de água e esgoto. O agente infeccioso causador dessa enfermidade é a Salmonella enterica do sorotipo Typhi, uma bactéria que pode gerar mal-estar, dores, febre, problemas intestinais e até cardíacos.

Para tratar a doença, é necessário hidratar o paciente e fazer o uso de antibióticos. A vacina contra a febre tifoide é indicada apenas em alguns casos específicos, pois não garante imunidade por muito tempo.

9. Ascaridíase

Você provavelmente conhece alguém que já teve lombriga. A ascaridíase, que também recebe esse nome popular, é muito comum no mundo todo. O verme causador da infecção é um nematelminto de corpo longo e cilíndrico, denominado Ascaris lumbricóides.

A ingestão de água e alimentos contaminados com ovos do parasita é a principal forma de contaminação. Os sintomas são diversos, entre eles cólicas, diarreia, vômito e presença dos vermes nas fezes.

Para combater a ascaridíase, além de realizar o tratamento dos doentes com os medicamentos apropriados, o saneamento básico e a adoção de hábitos de higiene pessoal são essenciais.

10. Dengue

A dengue se tornou uma das doenças de veiculação hídrica mais comuns. A patologia tem curta duração e gravidade variável, e é causada por um vírus e transmitida pelo mosquito Aedes aegypti infectado. Ao contrário dos mosquitos comuns (Culex), esses pernilongos picam durante o dia.

Em geral, as epidemias ocorrem no verão, durante ou logo após períodos chuvosos. A dengue apenas se manifesta em humanos e é mais comuns em aglomerações urbanas. Os transmissores da doença se proliferam em locais com água acumulada, como cisternas, latas, caixas d’água, garrafas, pneus e vasos de plantas.

A doença causa diversos transtornos e desconforto, porém, em geral, não coloca a vida das pessoas em risco. Inicialmente, ocorre febre alta, podendo apresentar prostração, cefaleia (dor de cabeça), náusea, dor abdominal, mialgia (dor ao redor dos olhos ou muscular) e vômito. É comum que pacientes de casos mais graves desenvolvam manchas vermelhas na pele, cerca de 3 a 4 dias após o início da febre.

11. Rotavírus

O rotavírus é um importante agente transmissor de gastroenterite. A doença tem transmissão hídrica e por alimentos contaminados. O contato entre pessoas saudáveis e contaminadas também é um fator de extrema importância para a disseminação da patologia, afetando indivíduos que trabalham em espaços fechados como hospitais, creches e escolas.

O rotavírus se aloja no trato gastrointestinal e nas fezes infectadas de animais e seres humanos. Em países de clima tropical, a sazonalidade da doença é pouco definida, ocorrendo casos o ano inteiro.

12. Toxoplasmose

A toxoplasmose é uma doença causada por um protozoário. Ela é transmitida por meio da ingestão de água e alimentos contaminados por fezes de animais portadores do micro-organismo ou pelo consumo de alimentos mal lavados.

Para prevenir a transmissão dessa doença de veiculação hídrica, é importante manter alguns hábitos de higiene, como lavar bem os alimentos e consumir água de qualidade atestada.

A importância do tratamento da água

Como você pôde perceber, para combater diversas doenças de veiculação hídrica, é fundamental adotar cuidados de higiene, como lavar as mãos e os alimentos, além de garantir a qualidade da água que chega até a torneira por meio da limpeza regular da caixa d’água, por exemplo. Quando a água vier de fontes não seguras, ela deve ser fervida antes da ingestão.

No entanto, o tratamento adequado da água e do esgoto se destacam como as principais ações de prevenção contra as doenças de veiculação hídrica. Isso porque o saneamento básico diminui consideravelmente as chances de a água contaminada por micro-organismos nocivos ser consumida pela população.

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Este texto foi redigido com base na entrevista feita com Marcelo Tagliaferro, Médico do Trabalho na BRK Ambiental.