Segundo dados do Instituto Trata Brasil, apenas 52% da população brasileira tem acesso à coleta de esgoto. Isso significa que quase 100 milhões de brasileiros não têm esse serviço importante para a qualidade de vida, a saúde e o bem-estar em suas residências. Além disso, são cerca de 13 milhões de crianças e adolescentes que não têm acesso ao saneamento básico.

Infelizmente, essa é a realidade mesmo após a criação da Lei do Saneamento Básico, que entrou em vigor em 2007. É importante destacar que essa falta de infraestrutura não traz apenas problemas sociais para o Brasil, mas também questões ambientais e de saúde pública, visto que é um importante fator na disseminação de doenças.

No contexto das patologias, as crianças estão mais vulneráveis que os adultos. Isso porque, ao brincarem em áreas sem saneamento, como em locais que têm esgoto a céu aberto, por exemplo, há risco de contaminação.

Pensando nisso, neste artigo abordaremos o que é o saneamento básico e quais são os riscos que as crianças correm ao brincar em áreas sem esses serviços primordiais para a saúde. Confira!

O que é saneamento básico e qual é a sua importância?

O Instituto Trata Brasil define saneamento básico como um conjunto de medidas que tem o objetivo de preservar ou modificar as condições do meio ambiente a fim de prevenir doenças, melhorar a qualidade de vida dos brasileiros e promover a saúde.

No Brasil, o saneamento básico é um direito de todos os cidadãos, assegurado pela Constituição e definido pela Lei 11.445/2007. Esses serviços são definidos como: “infraestrutura e instalações operacionais de abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana, drenagem urbana e manejos de resíduos sólidos e de águas pluviais”.

Por meio dessas atividades essenciais, é possível prevenir doenças, reduzir a mortalidade infantil, melhorar os índices de educação e empregabilidade e expandir o turismo. Segundo estudo do Trata Brasil, jovens que vivem em moradias com banheiro têm 1,2 anos a menos de atraso escolar em relação aos que não têm.

A seguir falaremos mais sobre esse impacto da falta de saneamento no desenvolvimento das nossas crianças e adolescentes.

Quais são os perigos que as crianças correm ao brincar em áreas sem saneamento básico?

1. Doenças

Sem dúvidas o primeiro problema das áreas sem saneamento básico é a disseminação de doenças. O primeiro foco são os esgotos a céu aberto, visto que essas águas estão contaminadas com fezes, urina e outros dejetos que podem estar contaminados com bactérias e vírus, por exemplo. Outro grande problema é a falta de coleta de lixo. O acúmulo de resíduos é um atrativo para animais, como os ratos e insetos, que são disseminadores de doenças. Além disso, serve como criadouro para mosquitos que podem transmitir dengue, chikungunya e zika.

Segundo estimativas do estudo de Carga Global de Doença, há números alarmantes em relação à mortalidade infantil devido à falta de medidas de saneamento básico. Para cada 1.000 criança nascida no Brasil em 2015, por exemplo, houve 17 mortes descritas para crianças de até 5 anos de idade. Uma das grandes responsáveis por esse número é a diarreia, doença que acomete os brasileiros em decorrência da falta de tratamento da água e do contato com esgoto contaminado. A diarreia mata 2.195 crianças por dia no mundo, fazendo mais vítimas do que o sarampo, a malária e a AIDS juntas.

Confira abaixo algumas das principais doenças causadas pela falta de saneamento.

Gastroenterite

Infecção do estômago e do intestino causada por vírus ou bactérias que causam diarreia, vômitos, febre e desidratação. É responsável pela maioria das mortes em bebês menores de um ano.

Febre Tifoide

É uma doença causada pela bactéria Salmonella Typhi. Progride em um período de quatro semanas, causando diarreia ou constipação, febre, mal-estar, perda de apetite e fraqueza.

Hepatite A

A Hepatite A é transmitida por meio da água contaminada e afeta o fígado, causando cansaço, perda de apetite, diarreia ou vômito, olhos amarelados e outros.

Cólera

É uma doença causada pelo micróbio Vibrio cholerae, que se localiza no intestino das pessoas, provocando diarreia e vômitos. Se intensos, podem causar quadro de desidratação rapidamente, levando à morte.

Esquistossomose

É uma doença causada por um verme, o Schistosoma Mansoni, caracterizada por diarreia, inchaço abdominal, mal-estar e crescimento lento, com dificuldade na aprendizagem.

Ascaridíase

A lombriga, ou ascaris, é um verme que vive no intestino e causa a ascaridíase. É por meio da terra contaminada, dos alimentos mal lavados e de mãos sujas levadas à boca que os ovos das lombrigas chegam ao intestino.

Teníase

A solitária, ou tênia, é um verme muito comum na zona rural, sendo o porco e o boi os transmissores da doença. Esse verme fica localizado no intestino e se alimenta dos nutrientes do seu hospedeiro, prejudicando o crescimento da criança.

Leptospirose

É uma doença infecciosa causada pela bactéria Leptospira presente na urina de ratos, e pode ser potencialmente fatal. Causa sintomas gastrointestinais como diarreia e vômitos.

2. Problemas no desenvolvimento

Ser acometido frequentemente por doenças pode comprometer bastante o desenvolvimento físico e intelectual de uma criança. Isso acontece porque as principais enfermidades transmitidas por meio da água contaminada ou não tratada são patologias do sistema gastrointestinal.

Dessa forma, a criança deixa de absorver os nutrientes adequados para o seu crescimento e desenvolvimento, como acontece quando há presença de vermes no intestino ou episódios frequentes de diarreia. Esses problemas no desenvolvimento acabam impactando também no desempenho escolar das crianças, como veremos abaixo.

3. Atraso escolar

Dados do Trata Brasil mostram que crianças e adolescentes que residem em áreas sem acesso aos serviços de saneamento básico, principalmente o de coleta de esgoto, têm um atraso escolar superior em 1,4% ao das crianças que residem em locais que contam com o serviço.

As doenças frequentes aumentam significativamente o índice de faltas na escola, o que compromete o aprendizado. Além disso, como foi falado, os problemas podem afetar o desenvolvimento físico e intelectual da criança que, devido à falta de nutrientes, terá mais dificuldade para aprender os conteúdos ensinados em sala de aula.

Esse fato também prejudica a vida social, que durante a infância é feita, em grande parte, dentro da escola. Isso acontece porque a criança falta com mais frequência, deixando de realizar tarefas com objetivo de socialização e interação com os colegas. Ou seja, com isso, fica evidente que o acesso ao saneamento evita o déficit escolar e aumenta a produtividade dos jovens, gerando melhores oportunidades para eles no futuro.

Para evitar os problemas descritos acima, é imprescindível que os pais tenham cuidado com o lazer das crianças, evitando o contato com situações ou ambientes de risco. Dessa forma, os pequenos não devem brincar em locais com esgoto a céu aberto e é preciso ter cuidado ao tomar banhos de chuva (enxurrada) ou de rio, por exemplo.

Outras atitudes importantes para evitar contaminação por bactérias e vírus são lavar muito bem os alimentos, higienizar as mãos e fazer o descarte correto do lixo — não descartá-lo no esgoto por meio do vaso sanitário ou da pia da cozinha. O descarte indevido pode causar entupimentos e, como consequência, retorno de esgoto no imóvel, principalmente pelo vaso sanitário ou ralo do banheiro, por exemplo. Além disso, é fundamental procurar atendimento médico rapidamente quando houver os sintomas acima citados.

E então, entendeu como a falta de saneamento básico é perigosa para a saúde das crianças? Se você deseja saber mais sobre o assunto, conheça também o panorama sobre a infraestrutura do setor no Brasil.

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Este conteúdo foi produzido com base na entrevista realizada com Karina Pereira, do setor de Responsabilidade Socioambiental da BRK Ambiental.