Saneamento básico é o termo que denomina um conjunto de serviços essenciais para o bem-estar e a saúde da população. Infelizmente, no Brasil, essa não é uma realidade para todos. Entre os serviços mais precários estão a coleta e o tratamento de esgoto.

De acordo com a PNAD, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios realizada pelo IBGE, em 2018 apenas 66% dos brasileiros tinha acesso à rede de coleta, sendo que em 13 estados o número de casas com coleta de esgoto era menor que 50%. Além disso, de tudo o que é coletado, apenas 73,7% passa pelo tratamento. Dessa forma, se considerarmos todo o esgoto gerado no país, apenas 46% recebe tratamento.

Os dados mostram, ainda, que 85,8% das casas brasileiras têm abastecimento de água potável vinda da rede geral de distribuição. No entanto, nesse serviço também há enorme disparidade entre os estados. No Sul, Sudeste e Centro-Oeste, os índices giram em torno de 80% (Mato Grosso) a 96% (São Paulo), enquanto os dez estados com menor acesso estão no Norte e no Nordeste, como Rondônia, que tem o pior índice (43,6%).

A carência de saneamento básico tem impacto importante na vida das pessoas. A ausência dos serviços traz diversas complicações não só para a saúde, mas também para a economia, a educação e outros setores. Neste artigo abordaremos quais são os 6 principais problemas decorrentes da falta de saneamento básico. Confira!

1. Doenças

Sem dúvidas, a propagação de doenças é um dos impactos mais relevantes da falta de saneamento básico para a saúde. Em sua maioria, as patologias estão relacionadas ao contato com a água contaminada, seja pela ausência de abastecimento de água potável ou de coleta e tratamento do esgoto.

O esgoto residencial é composto por uma mistura da água proveniente dos banhos, da limpeza de louças e roupas e da descarga do vaso sanitário. Todos esses resíduos são ricos em micro-organismos, agentes patogênicos, compostos tóxicos e nutrientes, que servem de alimento para bactérias e vírus. Sendo assim, não devem ser descartados de volta à natureza sem tratamento — o que, como vimos, ainda acontece com mais da metade dos esgotos gerados no país.

Da mesma forma, a água não tratada é um importante veículo de disseminação de doenças. Isso fica claro em um comparativo realizado pelo Instituto Trata Brasil, que relaciona as dez piores e melhores cidades do ponto de vista do acesso ao saneamento básico.

Nas cidades em que a porcentagem dos cidadãos com acesso ao saneamento era pequena, a taxa de internação por diarreia foi de 190 para cada 100 mil habitantes, enquanto que entre as dez melhores cidades com saneamento, essa taxa caia para 68,9. Entre as doenças mais comuns estão a esquistossomose, a dengue, a leptospirose, a giardíase, a amebíase, a hepatite A e a cólera.

2. Poluição

Pessoas que vivem em residências em que não há saneamento básico sofrem com esgotos correndo a céu aberto, o que é uma grande preocupação para a saúde e também para o meio ambiente. Afinal, esses resíduos entram em contato com o solo e deságuam em rios e lagoas, contaminando-os.

A falta de tratamento de esgoto também é uma preocupação, visto que em muitas localidades, apesar de ser recolhido, o esgoto é devolvido para a natureza sem tratamento, o que polui os mananciais. Em paralelo, há ineficiência na coleta de lixo e em sua destinação adequada.

O destino correto é o aterro sanitário, visto que esse local é apropriado para tratar os gases, o chorume e guardar o lixo em longo prazo. No entanto, boa parte dos resíduos das famílias brasileiras são descartados em lixões, que são depósitos a céu aberto em que há grande chance de contaminação do solo e das águas, assim como propagação de doenças.

3. Problemas escolares

A ausência de saneamento básico também afeta o rendimento escolar e o aprendizado de crianças e adolescentes. Pessoas que sofrem com a carência desses serviços ficam doentes com mais frequência e, consequentemente, faltam mais às aulas e têm queda no rendimento escolar.

Para se ter uma ideia, de acordo com um estudo realizado na USP, que coletou e analisou dados entre 2000 e 2010, ao aumentar 1% do acesso da população ao saneamento, também é possível:

  • reduzir 0,12% na taxa de abandono escolar;
  • aumentar 0,11% na taxa de frequência escolar;
  • diminuir 0,31% na taxa de distorção idade-série.

4. Desvalorização do turismo

Além de impactar na saúde e na economia, a falta de saneamento básico também afeta o turismo. O Brasil é reconhecido por todo o mundo por suas belas paisagens, mas a ausência de tratamento da água e esgoto e o problema do lixo tornam vários destinos menos cotados.

Segundo dados do Instituto Trata Brasil, no litoral nordestino, por exemplo, existem diversas praias que são impróprias para o banho, decepcionando os turistas que procuram o Nordeste como destino de viagens. Caso fosse investido dinheiro no saneamento básico nessas áreas, milhares de empregos seriam criados e mais investimento turístico seria gerado, movimentando a economia do país.

5. Aumento da desigualdade social

O Brasil é um país de enorme extensão territorial e, por esse motivo, existem áreas com ótimos índices de saneamento, enquanto outras sofrem sem esses serviços básicos que proporcionam viver com mais qualidade. Nas regiões com maior taxa de acesso, como o Sudeste, 78,3% da população tem seu esgoto coletado. No entanto, mesmo dentro das cidades dessa região há desigualdade, uma vez que a cobertura dos serviços não acontece de forma homogênea.

De modo geral, as famílias de baixa renda são as que mais sofrem com a falta de água e esgoto tratado, bem como de serviços de recolhimento do lixo, por viverem em regiões marginalizadas. Essas pessoas que vivem em áreas sem acesso aos serviços têm mais chance de adoecerem e faltarem ao trabalho, impactando diretamente na renda mensal familiar.

Além disso, instalar esses sistemas em áreas regulares já é um desafio, e ele fica ainda maior quando as áreas são irregulares. Esse cenário torna extremamente difícil reduzir a desigualdade e a pobreza, visto que as pessoas mais impactadas são aquelas sem saneamento básico.

6. Enchentes

Quando chove, o lixo, que não é recolhido ou que é descartado incorretamente nas ruas, onde não há estrutura de contenção, acaba sendo carregado pelas águas para as bocas de lobo. Elas são parte da estrutura da rede de drenagem de águas pluviais dos municípios, que é a responsável por transportar a água da chuva para os rios e mares.

Assim, a água da chuva é drenada pelos bueiros, que entopem devido ao acúmulo de lixo. Dessa forma, há maior probabilidade de enchentes, o que causa muitos problemas para a população e para a infraestrutura das cidades, além de aumentar a propagação de doenças e degradar propriedades.

Mesmo após a constatação de tantos pontos negativos, a universalização dos serviços de saneamento básico no Brasil, que estava prevista pelo Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) para 2033, ainda é um objetivo distante. Caso o ritmo de investimento no setor continue como está, a previsão atual é que o saneamento chegue para todos os brasileiros apenas após 2050.

Ainda segundo o Plansab, para atingir a meta dentro do prazo, os investimentos entre 2013 e 2033 deveriam ser da ordem de R$ 304 bilhões para que os serviços de água e esgoto sejam universalizados no país. No entanto, nos últimos anos, o valor aplicado a cada ano representa menos da metade do que é necessário.

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Este conteúdo foi produzido com base na entrevista realizada com Karine Mourato Queiroz, responsável pela área de Responsabilidade Socioambiental da BRK Ambiental em Pernambuco.