Promover a saúde do homem e preservar o meio ambiente estão entre os principais objetivos do estabelecimento de uma política efetiva de saneamento básico. No Brasil, no entanto, a universalização do acesso à água potável e ao tratamento de esgoto ainda é um sonho distante.

De acordo com o Instituto Trata Brasil, cerca de 83% dos brasileiros recebiam água tratada em 2016, deixando 35 milhões de pessoas sem abastecimento de água potável. Quando o assunto é coleta de esgoto, os números são ainda mais preocupantes. Acredite: quase metade da população, o que corresponde a cerca de 48% ou mais de 100 milhões de pessoas, não tem seus rejeitos domésticos coletados.

Mesmo nas 100 maiores cidades do nosso país, os dados não são nada animadores, revelando que o acesso à coleta de esgoto é restrito a 72% dos habitantes. Para piorar a situação, o esgoto coletado nem sempre é tratado. Tudo isso faz com que inúmeros cidadãos sejam continuamente expostos a doenças causadas direta ou indiretamente pela falta de saneamento básico.

Além do prejuízo para a saúde, precisamos ressaltar que os reflexos da precariedade dos serviços também se estendem à economia. Quer entender melhor? Então continue conosco para saber mais sobre o assunto!

A relação entre saneamento básico, saúde e economia

Em diversas partes do mundo, o saneamento básico é um privilégio da população mais rica. Em 2017, de acordo com a OMS, cerca de 60% dos habitantes da Terra não tinham acesso a um dos requisitos básicos para a saúde humana: o saneamento com gestão segura.

Associada a outros riscos, como a subnutrição e problemas de higiene, a falta de saneamento facilita a propagação de doenças, sobretudo entre aqueles que apresentam uma saúde mais fragilizada. Para você ter uma ideia, a diarreia causa anualmente, em todo o mundo, a morte de 361 mil crianças com menos de 5 anos. O detalhe é que a coleta de esgoto e o acesso à água potável poderiam evitar 88% dessas mortes.

Crianças que sofrem com Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado (DRSAI) apresentam saúde debilitada e, como consequência, têm a educação prejudicada. De acordo com uma análise de dados coletados entre 2000 e 2010, o aumento de uma unidade percentual no acesso ao saneamento está associado a:

  • aumento de 0,11% na taxa de frequência escolar;
  • queda de 0,31% na taxa de distorção idade-série;
  • redução de 0,12% na taxa de abandono escolar.

Mas não são apenas as crianças que são afetadas pela falta de saneamento adequado. As infecções gastrointestinais também fazem com que os adultos se afastem de suas atividades laborais, o que gera custos para as empresas e perda de desempenho por parte dos profissionais.

Para trabalhadores autônomos, como comerciantes informais e diaristas, a renda familiar mensal é diretamente afetada pelo afastamento do trabalho, uma vez que um dia sem trabalhar representa um dia sem ganhar dinheiro, diferentemente daqueles que têm carteira assinada. Não é nada surpreendente, portanto, que o trabalhador de regiões com ampla cobertura sanitária produza mais e receba salários maiores.

A geração de renda e de novos empregos também é afetada nas áreas em que não há coleta e tratamento de esgoto. O turismo, por exemplo, é um setor fortemente impactado pela falta de saneamento básico. Imagine uma bela praia com água imprópria para banho, com o esgoto escoando diretamente para o mar sem tratamento algum. Péssimo, não é mesmo?

Outro reflexo de uma boa estrutura sanitária é a valorização dos imóveis. Regiões com coleta e tratamento de esgoto, oferta de água potável e meio ambiente preservado são mais atrativas, o que gera maior demanda por casas e apartamentos, além de fortalecer o comércio local.

Universalizar o acesso à água potável e ao tratamento de rejeitos representaria, portanto, a criação de novos postos de trabalho e a movimentação da economia. Até mesmo a arrecadação de impostos seria alavancada, favorecendo os governos locais. É preciso entender quanto antes que a aplicação de dinheiro em saneamento básico não é gasto, mas sim investimento. Aliás, o retorno pode ser visto nos números a seguir:

  • cada real aplicado em saneamento gera 4 reais de economia em saúde;
  • o custo de uma internação por infecção gastrointestinal é de 355,71 reais por paciente no SUS;
  • a coleta universal de esgoto representaria 74,6 mil internações a menos em nosso país;
  • 14 milhões de pessoas são afastadas do trabalho anualmente por diarreia ou vômito, ficando em média 3,32 dias longe das atividades;
  • o custo com as horas não trabalhadas somou 872 milhões de reais em 2015;
  • a universalização do saneamento tem potencial para criar 50 mil postos de trabalho, injetando 7,2 bilhões de reais em salários na economia.

As principais doenças agravadas pela falta de saneamento básico

A destinação inadequada do esgoto e a falta de tratamento da água que consumimos são focos de diversas doenças causadas por organismos patogênicos que se desenvolvem em ambientes insalubres. Além disso, a falta de saneamento contribui para o agravamento de epidemias, deixando a população mais exposta a vírus e bactérias que desencadeiam enfermidades potencialmente fatais.

A maioria das doenças frequentemente associadas à precariedade nos sistemas de coleta e tratamento de esgoto, bem como no acesso à água potável, é causada por cistos, larvas ou parasitas provenientes de fezes e fluidos humanos a que a população sem acesso ao saneamento está constantemente em contato. Conheça, a partir de agora, 8 dessas doenças e veja como evitá-las!

1. Diarreia por Escherichia coli

Essa bactéria, normalmente encontrada em nossos intestinos, é eliminada naturalmente nas fezes. Algumas linhagens, no entanto, são capazes de causar diarreia, sobretudo em crianças e bebês. A contaminação se dá a partir da ingestão de alimentos ou água contendo as bactérias (transmissão fecal-oral), podendo ser evitada pela:

  • higienização ou cozimento de frutas, verduras, legumes e carnes;
  • fervura da água;
  • adoção de bons hábitos de higiene.

2. Disenteria bacteriana

Causada pela bactéria Shigella, essa doença tem a diarreia como principal sintoma. Os casos mais leves regridem espontaneamente, mas é preciso estar atento à desidratação. Medidas de higiene na cozinha e ao usar o banheiro são fundamentais para prevenir a disenteria. Evitar o contato com águas não tratadas é essencial.

3. Febre Tifóide

Essa doença é causada pelo consumo de água ou alimentos contaminados com a bactéria Salmonella enterica sorotipo Typhi. Seus sintomas mais comuns são mal-estar, dor de cabeça, dores abdominais, vômitos e diarreia com sangue. Em casos extremos, pode ocorrer a perfuração do intestino, levando a óbito. Muitos pacientes se tornam portadores crônicos da bactéria, eliminando microrganismos nas fezes e na urina sem apresentar sintomas, o que contribui para a disseminação da doença.

4. Cólera

Causada pela bactéria Vibrio cholerae, a Cólera é caracterizada por uma intensa diarreia na forma de água de arroz. Se não controlada, a intensa desidratação pode levar à morte. A contaminação se dá pelo consumo de água ou alimentos contaminados com o microrganismo.

5. Leptospirose

Causada pela bactéria Leptospira, essa doença infecciosa é transmitida ao homem pela urina de roedores. Sua propagação normalmente ocorre em enchentes, quando a urina dos animais presente nos esgotos se mistura com a enxurrada. O contágio se dá pelo contato da água contaminada com a pele, causando sintomas como febre, dores no corpo, vômitos, diarreia, icterícia e alterações urinárias.

6. Hepatite A

A Hepatite A é uma doença viral transmitida pela via fecal-oral. Em alguns casos, a infecção sequer produz sintomas. Outras vezes, os sinais são tão leves que a doença nem é diagnosticada. Os quadros mais comuns incluem fadiga, náuseas e vômitos, dor abdominal, febre e icterícia. Por mais que a cura seja espontânea na maioria das vezes, sua forma fulminante pode levar rapidamente à morte.

7. Verminoses

A infecção por vermes normalmente se dá pela ingestão de água ou alimentos contaminados, mas pode ocorrer também penetração do parasita por ferimentos na pele. Os sintomas mais associados à presença de vermes no intestino são dores abdominais, enjoo, mudança do apetite, falta de disposição, fraqueza, diarreia e vômitos.

8. Arboviroses

As doenças transmitidas por insetos vetores, tais como Dengue, Zika, Chikungunya e Febre Amarela, são favorecidas pela presença de locais adequados para a procriação dos mosquitos. A melhora da drenagem das águas pluviais, um dos pontos mais importantes da nossa Política Nacional de Saneamento Básico, exerce, portanto, papel fundamental na prevenção dessas enfermidades.

Como reduzir todas essas doenças simultaneamente? A resposta está no saneamento básico, com a promoção da qualidade de vida e a geração de impactos significativos para a economia. Priorizar a saúde da população é um passo importante para uma sociedade mais equilibrada e produtiva. Nada disso é possível sem um serviço de saneamento de qualidade.

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Este texto foi redigido com base em entrevista realizada com Marcelo Tagliaferro, Médico do Trabalho da BRK Ambiental.