Você sabe o que acontece com a água que você usa para lavar roupas? E a que escorreu pelo ralo após o banho, ou desceu pela descarga do vaso sanitário? Essas águas que já foram utilizadas pelas pessoas ou em processos industriais são o que conhecemos como esgoto, também chamados de efluentes, e precisam ter uma destinação correta para que não poluam os mares e os rios. A isso se dá o nome de gestão de efluentes.

Neste artigo, vamos explicar como ela acontece, quais as melhores práticas do setor e quais os maiores desafios quando o assunto é gestão de efluentes no Brasil. Falaremos também sobre como essa gestão melhora a qualidade de vida das pessoas, contribui para a preservação do meio ambiente e para a saúde pública. Continue lendo e aprenda a contribuir com esse processo!

Saiba o que é a gestão de efluentes

A primeira coisa a saber é o que é um efluente. É chamado assim todo o resíduo resultante de ações humanas e que pode ser tratado para despejo em corpos d’água ou na rede de esgoto. Eles são separados em efluentes líquidos e gasosos, e podem ser industriais ou domésticos.

Os efluentes mais produzidos são os líquidos. Eles são, inclusive, os que devemos ter mais cuidado, uma vez que podem conter matéria orgânica, compostos químicos ou tóxicos, especialmente se forem efluentes industriais, e que precisam passar por um tratamento para serem lançados sem que poluam os corpos hídricos. Caso contrário, eles podem virar um problema ambiental ou de saúde pública para a região.

Conheça as melhores práticas para o tratamento de efluentes

Para tratar esses esgotos gerados nas nossas casas ou na indústria, é preciso saber qual a sua carga poluidora e quais possíveis contaminantes estão presentes nele. De acordo com essa classificação, eles são encaminhados para uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), para passarem por processos específicos e se tornarem água de reúso ou voltarem despoluídos para o meio ambiente.

A partir dessa análise, a gestão de efluentes pode ser dividida em 4 fases:

  • geração — quando fazemos uma análise da quantidade e do tipo de efluentes que se gera. Observa-se ainda as razões pelas quais eles são produzidos e tenta-se reduzir a sua geração;
  • coleta e transporte — o deslocamento desses resíduos deve ser feito de forma eficiente e compatível com suas características;
  • tratamento e transformação — aplicação de tratamento adequado de acordo com o tipo de efluente, e transformação destes em produtos úteis, quando possível;
  • eliminação — quando possível, devolução do efluente tratado para os mananciais. Quando não, descarte em locais adequados, sem danos ao meio ambiente, como em aterros sanitários.

No caso de gestão de efluentes industriais, as melhores práticas são aquelas que permitem que o que não pode ser devolvido para a natureza, como os lodos, sejam transformados por meio de reciclagem, reúso ou reutilização em produtos como fertilizantes e tijolos, ou utilizados em compostagem.

Veja as etapas do tratamento convencional

Nas estações de tratamentos de efluentes convencionais, são processados os efluentes domésticos, geralmente de fundo sanitário, e os industriais, mas sem grandes complexidades. Ambos passam por algumas etapas, que variam conforme a tecnologia utilizada e as características do efluente, até serem considerados aptos para devolução ao meio ambiente.

As etapas pelas quais esse efluente pode passar são: pré-tratamento, tratamento primário, tratamento secundário, tratamento terciário e tratamento do lodo. Veja agora o detalhamento de cada um.

Pré-tratamento

Nesta fase, separam-se os sólidos dos líquidos contidos no efluente por meio de gradeamento — onde grades são usadas como barreiras físicas para sólidos maiores —, e desarenação, em que flocos de areia sedimentam no fundo de tanques e matérias orgânicas ficam na superfície por serem mais leves.

Tratamento primário

Após essa primeira fase de limpeza, em que sólidos e areias são removidos, esse efluente vai para o tratamento primário, em que processos físico-químicos removem sólidos em suspensão sedimentáveis, materiais flutuantes e matéria orgânica.

Por meio de produtos químicos, ocorre a neutralização dessas cargas com floculação (formação de flocos). Assim, ocorre uma decantação primária, em que a parte sólida (lodo) vai para o fundo do tanque, e o efluente líquido fica em suspensão.

Tratamento secundário

Aqui, os itens poluidores do efluente bruto começam a ser tratados com processos bioquímicos. Eles podem ser aeróbios ou anaeróbios e servem para remover a matéria orgânica ainda presente no líquido.

Esses processos trabalham na decomposição da matéria orgânica suspensa e dissolvida na água. O resultado final é gás carbônico, material celular e água. Ou seja, um efluente 95% livre de poluentes. Esse líquido ainda passa por uma decantação secundária, que proporciona uma última sedimentação de materiais sólidos no fundo e a clarificação da água restante. A água obtida após essa fase pode ser devolvida para a natureza sem que haja risco para o meio ambiente.

Tratamento terciário

No tratamento terciário, há a remoção de compostos inorgânicos do efluente, como nitrogênio e fósforo. Esse tratamento foca em poluentes específicos que não foram retirados pelos processos anteriores, como metais pesados, compostos não biodegradáveis, nutrientes e outros.

Geralmente, esse nível de tratamento é utilizada para tratar esgotos com características de industrial ou remover nutrientes a uma concentração que não é possível de se atingir apenas com o processo secundário. O tratamento terciário pode ser feito com produtos químicos ou de forma biológica.

Tratamento do lodo

Ao final desses processos, temos dois tipos de resíduos: o efluente tratado e o lodo obtido na primeira e na segunda etapa do tratamento. Esse lodo é um resíduo sólido que contém toda a matéria orgânica do efluente e pode ser melhorado antes de receber seu destino final.

Primeiramente, faz-se o adensamento da matéria, a fim de reduzir a quantidade de água ainda presente nele. Na segunda etapa, é feita uma digestão anaeróbica para reduzir os micro-organismos patogênicos e, assim, tornar seguro o uso desse lodo.

Esse composto ainda passa por um processo químico de desidratação e resulta em um produto final rico em matéria orgânica, que pode ser usado como adubo e no processo de reflorestamento. Se nenhum desses usos forem aplicados, ele ainda pode ser descartado em aterros sanitários ou incineradores, sem prejuízo ao meio ambiente.

Entenda quais são os desafios da gestão de efluentes no Brasil

Vimos que é possível tratar os efluentes domésticos e industriais e dar bom uso para ele de forma sustentável e preocupada com o meio ambiente. No entanto, 51% dos esgotos gerados no país não são tratados, o que resulta em prejuízos para a saúde da população e para a natureza, com contaminação do solo e dos recursos hídricos.

Dependendo do nível de poluição, pode-se perder a vitalidade de um rio, inutilizar o solo para qualquer fim, como o plantio, e ainda contaminar as pessoas com os mais variados tipos de doenças transmitidas pela água contaminada.

Assim, percebemos que a gestão de efluentes é um processo muito importante para a infraestrutura das cidades, que traz inúmeros benefícios para a população. No entanto, no Brasil, o desafio da universalização do saneamento básico ainda é muito grande: quase 100 milhões de brasileiros não têm acesso sequer à coleta de seus efluentes. Além disso, são cerca de 13 milhões de crianças e adolescentes que vivem sem acesso a aos serviços de saneamento.

Além do comprometimento em universalizar o saneamento para que toda a população possa viver com mais dignidade, saúde e qualidade de vida, o meio ambiente também se beneficia. Quando esgoto sem tratamento é despejado em rios, mares e oceanos, comprometemos a sobrevivência de diversos ecossistemas e a própria disponibilidade de água para o nosso futuro.

Se você gostou desse artigo, que tal se aprofundar mais no assunto de tratamento avançado de efluentes e conhecer a água de reúso?